Como as fintechs podem ampliar o crédito ao pequeno empreendedor

Inovações de startups contribuem para superar dificuldades encontradas nos grandes bancos

Por Jorge Vargas Neto *

As pequenas empresas são um dos principais motores da economia brasileira. De acordo com o Sebrae, elas respondem por 27% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

São também responsáveis pela geração de milhares de postos de trabalho. Números do Ministério do Trabalho apontam que, no mês de julho, o saldo de empregos registrado por micro e pequenas empresas representou 72% do total gerado em todo o Brasil.

Com a crise econômica, cresceu o número de pequenos e microempreendedores nos últimos anos. Empreender foi a alternativa encontrada por muitos para fugir do desemprego. Porém, para operar o próprio negócio, é preciso de investimento e crédito.

Os pequenos empresários encontram uma séria de dificuldades para obter empréstimos junto a instituições financeiras tradicionais.

Burocracia e juros altos tornam o empréstimo praticamente inviável. Segundo o Sebrae, 84% das pequenas e microempresas não têm acesso a linhas de financiamento, destinadas principalmente a grandes negócios.

Um dos principais entraves é a assimetria de informação. Há muitos casos de brasileiros que não possuem conta bancária ou histórico financeiro.

A ausência de dados faz com que bancos, ao usarem o modelo tradicional de análise de crédito, não consigam avaliar adequadamente os riscos e, consequentemente, acabam negando o empréstimo ou liberando-o com juros altos.

Também é importante ressaltar que, segundo o Banco Central (BC), os quatro maiores bancos do país concentraram 78,51% do mercado de crédito em 2017.

Concentração de mercado

Há várias razões para esse cenário. A principal delas é movimento de fusões e aquisições no setor financeiro. Ao mesmo tempo em que gera maior solidez das instituições financeiras e mais segurança para o depositante, a concentração diminui a concorrência e leva ao aumento do spread (diferença entre a taxa básica de juros e o que é efetivamente cobrado do cliente).

Nesse contexto, as fintechs surgem como uma alternativa para ampliação da oferta de crédito no país. Startups como a Zen trazem inovações na análise de risco, como o processamento de um volume muito grande de informações (big data), o que permite identificar perfil e comportamento de quem pede o empréstimo.

Um exemplo é o Zen Finance, primeiro produto brasileiro de crédito como serviço (CaaS, na sigla em inglês). A plataforma aplica aprendizado de máquina a informações do marketplace em que o tomador de empréstimo atua, como histórico de vendas e faturamento, e as enriquece com mais de 200 pontos de dados não convencionais, como comportamento em redes sociais e satisfação do cliente.

Com modelos de negócio inovadores e custos mais baixos, as fintechs contribuem para a redução do spread e o aumento da concorrência no setor financeiro.

Além disso, com mais tecnologia e presença digital, as startups conseguem acessar mercados mal atendidos pelos grandes bancos, como os pequenos negócios.

É um enorme desafio para todo o mercado criar um ambiente mais amigável ao crédito e no Brasil.

Com cadastro positivo, maior abertura do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao crédito a pequenos empreendedores e ajuda das fintechs, poderíamos melhorar consideravelmente a oferta de produtos financeiros a essa parcela do mercado, pouco atendida pelas instituições tradicionais.

Jorge Vargas Neto é CEO e fundador da fintech de crédito Zen

Sobre Jorge Vargas Neto

Além de CEO e fundador da Zen, foi fundador e CEO na Biva, primeira plataforma de P2P lending do Brasil, vendida no começo de 2018 para o PagSeguro. É cofundador e diretor da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD). Advogado pela PUC-SP, atuou por 5 anos no escritório Pinheiro Neto, com passagens por Santander e Goldman Sachs. Tem mestrado no Insper, MBA na Saint Paul e CBE pela Columbia University, todos voltados a banking/fintech. É palestrante internacional e TED Speaker em temas relacionados a fintechs e inclusão financeira.

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